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"A criança que já fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada, quero ir buscar quem fui onde ficou."
(Fernando Pessoa)

Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

Um estranho na minha casa

Alguns anos depois que nasci, meu pai conheceu um estranho, recém-chegado à nossa pequena cidade. Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com este encantador personagem, e em seguida o convidou a viver com nossa família. O estranho aceitou e desde então tem estado connosco. 

Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre o seu lugar na minha família; na minha mente jovem já tinha um lugar muito especial. 

Meus pais eram instrutores complementares: minha mãe me ensinou o que era bom e o que era mau e meu pai me ensinou a obedecer. Mas o estranho era nosso narrador.  Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias. Ele sempre tinha respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência. Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro! Levou minha família ao primeiro jogo de futebol. Fazia-me rir, e fazia-me chorar. 

O estranho nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.

Às vezes, minha mãe se levantava cedo e calada, enquanto o resto de nós ficava escutando o que tinha que dizer, mas só ela ia à cozinha para ter paz e tranquilidade. (Agora me pergunto se ela teria rezado alguma vez, para que o estranho fosse embora).
Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas o estranho nunca se sentia obrigado a honrá-las. As blasfémias  os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa… Nem por parte nossa, nem de nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse.
Entretanto, nosso visitante de longo prazo, usava sem problemas sua linguagem inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos e que fazia meu pai se retorcer e minha mãe se ruborizar.
Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool. Mas o estranho nos animou a tentá-lo e a fazê-lo regularmente.
Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem distinguidos.
Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. Seus comentários eram às vezes evidentes, outras sugestivos, e geralmente vergonhosos.
Agora sei que meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante minha adolescência pelo estranho.
Repetidas vezes o criticaram, mas ele nunca fez caso dos valores de meus pais, mesmo assim, permaneceu em nosso lar.
 
Passaram-se mais de cinquenta anos desde que o estranho veio para nossa família. Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era ao princípio.
Não obstante, se hoje você pudesse entrar na guarida de meus pais, ainda o encontraria sentado em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
Seu nome?
Nós chamamos-lhe TELEVISOR...
PS:
Pede-se que este artigo seja lido em cada lar, pois agora ele tem uma esposa que se chama Computador e um filho que se chama Telemóvel(celular)
Uma boa forma de  nos manter ainda mais IGNORANTES e distraídos da REALIDADE.
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LauraBM às 21:54

link do post | E custa, comentar aqui?
1 comentário:
De João Cano a 26 de Fevereiro de 2014 às 22:00
E assim mudou tudo,se perdeu o diálogo,não mais se juntou a família em cavaqueira,esses estranhos tomaram não só o lugar da prioridade como nos tiraram as boas maneiras,havia um lar de todos e hoje cada um vive longe do mais próximo.
Depois os mais novos dizem que vivemos de saudades,sim saudades das boas maneiras.
Um abraço

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R O D A P É


A não esquecer:

"Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos e...

esquece-se a urgência de deixarmos filhos melhores para o nosso planeta."

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"Uma criança que aprende o respeito e a honra dentro da própria casa

e recebe o exemplo dos seus pais,
torna-se um adulto comprometido em todos os aspectos,

inclusive em respeitar o planeta onde vive..."

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